Idéias próprias
(Por: Mauricio Zampieri Mikola)
- Qual é a palavra?
- Hochzeit... A tradução literal de casamento em alemão significa "O momento mais elevado"...
A conversa seguia animada entre as moças do escritório, mas Sandra manteve-se a parte, calada, apenas observando. Ela acreditava que seu casamento seria um conto de fada, mas não havia na história dela um final feliz. O tão aguardado "viveram felizes para sempre" ainda não aconteceu. De fato, o casamento dela foi o momento mais elevado de sua vida. E ela descobriu, que depois de se chegar ao ápice, o caminho invariavelmente é para baixo.
Roberto era tudo o que ela sempre quis. Bonito, inteligente, galante. Nas palavras dela, que sempre causavam uma ponta de inveja às amigas, o homem perfeito. Mas a máscara de homem perfeito caiu logo após a lua-de-mel. Extremamente mimado pela mãe, via Sandra como uma imagem dela. Que deveria serví-lo no momento em que ele requisitasse. Não ajudava em nada nas tarefas domésticas, dizendo que trabalhava muito em seu serviço. E ela ia acatando. Descobriram juntos, e da pior forma, uma leve tendência dele ao alcoolismo, e à violência. Mas sempre reinava em seu coração de mulher a esperança de mudá-lo, de torná-lo mais uma vez naquele namorado gentil para quem ela jurou seu amor.
A vida ia seguindo, até que em uma noite, tudo fugiu do controle. Bebendo além da conta, e imaginando traições e conspirações contra ele, Roberto se levantou para acertar as contas com Sandra. Sem aviso, nem motivo, bateu. E bateu de novo. A cena era triste, ela caída no chão, chorando, e ele apoiado, colérico, esbravejando palavras sem nexo. Num impulso de auto-preservação, ela apanhou algum utensílio de cozinha pesado e golpeou a cabeça dele. O grande corpo de Roberto se estatelou no chão, e permaneceu imóvel. Ela decidiu que agora seria a hora de tomar uma atitude, qualquer que fosse, para parar de sofrer. Mas não era capaz de matar. Aquele homem, por pior que fosse, era sua paixão. Ligou para uma das amigas, que embora estivesse afastada, ainda poderia ser considerada amiga de verdade. Contou, soluçando, a história, com o telefone em uma mão e o rolo de macarrão na outra, caso seu algoz se levantasse novamente. Mas ele demoraria a levantar, dado o teor etílico de seu sangue.
A amiga recomendou que Sandra o largasse. Diante da negativa, recomendou com pesar no tom de voz um tratamento psiquiátrico, pois um homem assim só poderia ser um louco. Sandra procurou na lista, no livrinho do convênio, e passando o olhar sobre a coluna de nomes de especialistas escolheu um ao acaso.
Ligou para o secretária do médico, e acertou os detalhes da consulta. Pediu total discrição no tratamento do caso. A secretária garantiu, que se fosse necessário, mandaria uma ambulância até a casa dela, para os curativos e imediata internação do marido. Sandra olhava apiedada para o homem deitado na cozinha, e decidiu aceitar a vinda do veículo.
A Ambulância veio sem fazer alarde. os vizinhos nem suspeitaram da movimentação. Um médico e dois enfermeiros fizeram um rápido procedimento no local, e levaram o casal para a clínica. Após a burocracia de entrada, Sandra foi autorizada a encontrar seu marido em um dos quartos, medicado e sedado. O médico esperava por ela, sentado junto ao leito do homem.
- Boa noite, Sandra. Pelo visto, você bate forte. Mas não se preocupe, não chegou a afetar o seu marido. De fato, tirando a embriaguez, ele está absolutamente normal.
- Obrigada, doutor. Não pensei na hora, só queria que ele parasse e... - Não tem o que se explicar. Não estou aqui para tomar sua confissão, pois não sou nem padre nem delegado. Como médico, minha missão é curar. E tenho um paciente aqui precisando de ajuda.
- Você pode ajudá-lo? Ele mudou tanto, nem mesmo o reconheço certas vezes. - Acredito que sim. Minha especialidade é comportamento, e alterações da conduta normal. Ele está em ótimas mãos.
- E o que o senhor fará com ele?- Estudarei o caso dele, receitarei alguns medicamentos, farei um acompanhamento do resultado. É um trabalho demorado, e penoso.
- Farei o que for necessário.- Existe uma alternativa...
- Qual?
O doutor conversou animado com a mulher, por vários minutos. Revelou que era algo experimental, mas com resultados ótimos a curto prazo. Por fim, ela foi categórica. Aceitou a sugestão do médico.
...
Alguns dias depois, em um sábado ensolarado, Sandra foi buscar Roberto na clínica. Ele a esperava, sentado pacientemente na recepção, lendo uma revista. Ao ouvir a voz dela, ele levantou num salto, deixando a publicação cair e foi ao encontro dela. Com um largo sorriso no rosto, a abraçou, beijou, e murmurou em seu ouvido:
- Estava morrendo de saudades de você!- Eu também...
Não conseguiu falar mais do que isso. A emoção estava embotando sua voz. O médico os encontrou, e após algumas recomendações em particular para Sandra, liberou os dois.
Ele falava sem parar no caminho de volta. Estava empolgado, e contava um mundo de novidades para ela. Parecia que queria por em dia todas as conversas que neglicenciou a ela durantes os meses em que estiveram casados. Ela apenas ouvia, atenta, aproveitando cada momento, cada palavra que seu marido falava. Estava vivendo, mais uma vez, aquela fase de namoro há tanto tempo esquecida.
Todos notavam a mudança. Ele se tornara atencioso com ela, lavava a louça, arrumava a casa, deixava de ver os amigos do futebol para se dedicar a ela. Até o próprio Roberto se tornou ciente da mudança.
Ele odiava lavar pratos. Era a pior coisa do mundo para ele. No entanto, ao vê-la próxima a uma pia cheia de louça suja, se adiantava e começava a lavar. Estranhava a compulsão que sentia para fazer, mas era prazeroso naquele momento tal tarefa. Adorava a pelada com os amigos, e o choppinho, e os papos da turma dele. Mas abria mão, feliz da vida, para ficar com ela. E até no sexo, aquele desejo que havia esfriado em sua vida monogâmica de repente começou a queimar de novo. A vida voltou a ser uma história da carochinha para o casal.
E certa noite, enquanto ela tomava seu banho, ele arrumava a casa. Sandra agora se permitia longos banhos, sem medo da crítica severa de Roberto. E ele aproveitava esse intervalo para limpar, arrumar, deixar tudo em ordem. Percebeu que ea havia deixado o computador ligado. Pensou na pobre moça, em como ela deveria estar cansada para esquecer de desligá-lo, e foi fazer isso. Olhou para a tela, e notou que Sandra estivera escrevendo. Um e-mail, endereçado ao médico que tratou dele após o acidente que sofrera em casa. Movido pela curiosidade, começou a ler:
"Querido doutor,
Muito obrigado por sua ajuda. O senhor é meu anjo da guarda, sem dúvida nenhuma. O Roberto está um amor, realmente o tratamento funciona maravilhosamente bem. Confesso que tive medo no início, mas as teorias do Dr. José Delgado estavam corretas. Quanto ao acompanhamento dele, não notei nenhuma alteração. Está tudo absolutamente normal.Mais uma vez, obrigada por tudo.
Beijos,
Sandra."
Quem seria esse tal de José Delgado, pensou Roberto. Com uma estranha ansiedade, que não sentia há tempos, abriu o navegador de internet, e digitou no Google: Jose Delgado. Milhares de resultados pipocaram, mas alguns chamaram sua atenção. Clicou em um, e viu cenas em preto e branco de macacos com o cérebro exposto, obedecendo a ordens remotas. Instintivamente, passou a mão na cabeça, mas não sentiu nada. Desligou horrorizado o computador, e se levantou. Pensou na esposa, e nas vontades estranhas que sentia. Visualizou, por uma fração de segundo, uma cena estranha. Sandra sempre levava a mão ao bolso, antes dessas vontades aparecerem.
Foi rapidamente ao quarto, e viu a roupa e a bolsa da mulher na cama. Apalpou rapidamente, e nada, Abriu a bolsa, temendo que o banho terminasse e ela o surpreendesse, e viu um pequeno chaveiro lá dentro. Uma bugiganga parecida com o alarme de um carro, um pouco maior e com mais botões, codificados por cor. Apertou um deles ao acaso, o vermelho, e descobriu do que se tratava. Era o controle remoto dele. Descoriu também que o vermelho deveria ser o botãozinho do tesão, pois uma onda de desejo varreu o corpo dele, culminando numa monumental ereção.
Guardou com dificuldade o controle na bolsa, e se dirigiu para a única coisa que vinha em sua mente. Para o corpo nú de sua mulher. Ele a pegou desprevenida, e queimando de vontade, transou com ela no chão do banheiro, até que ambos estivessem exaustos. Mas mesmo cansado após sua atuação, o ódio queimava dentro dele como há muito não acontecia. E lhe ocorreu o plano perfeito para sua vingança.
Logo após o incidente do banheiro, ele sugeriu a idéia de uma viagem. Algo íntimo, como se fosse uma segunda lua de mel. Ela adorou. E ele, sempre solicito, foi fazer as compras, preparou as malas, alugou um chalé nas montanhas, se esforçando para a viagem ser perfeita. Para ambos.
No final de semana foram para o chalé. Bem afastado, era o ambiente ideal. Ele descarregou as malas do carro, levou as compras para a cozinha, e chamou a Sandra. Ela, com um grande sorriso no rosto, prontamente atendeu.
- Oi amor!, Que lindo é tudo por aqui, parece um sonho!
- Realmente, parece. Pena que um dia nos tenhamos que acordar.
- Como assim? Ei, o que é isso? Onde você...
- Esse é meu amigo Jack Daniels, vaca. E me dá licença, pois agora vou ter uma palavrinha com ele.
Ele começa a beber direto do gargalo, com grandes goladas. Ela, desesperada enfia a mão no bolso, mas Roberto não larga a garrafa. Já com lágrimas nos olhos, ela suplica para ele parar.
- Acabou a pilha do seu controle remoto. E a TV travou no canal de terror!
Ele quebra a garrafa, e segurando o gargalo, avança para ela com um sorriso sádico no rosto. Dá dois passos, e não consegue prosseguir. Por mais que se esforce, seu corpo não obedece. Sandra está retraída em um canto, chorando de medo. O resto da garrafa escorrega da mão de Roberto. A porta se abre.
O médico que tratou Roberto entra, acompanhado de mais algumas pessoas. O médico fala com entusiasmo:
- Como vocês puderam acompanhar, realmente é possível o controle remoto das ações de uma pessoa por meio da estímulação de pontos específicos do cérebro. As pesquisas hoje estão muito avançadas, e permitem uma grande gama de controle sobre as ações da cobaia.
- Mas doutor, ela não fica sabendo desse controle? Não é possível que ela se rebele?
- Não, meu caro. Ela jamais ficará sabendo. É como se fossem os pensamentos dela, as vontades dela. Posso lhes garantir que em nenhum momento, a mulher soube que estava sendo controlada por nós, em todas as suas ações...
04/11/05

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